O aqui começa agora. Respire fundo e atravesse logo essa rua. Vá!

Transtornos pós-modernos

Felizmente existe uma grande divulgação das síndromes e transtornos que podem assolar nossa psicologia em nosso mundo cada vez mais pós-moderno. No entanto, uma das mais perigosas síndromes passa despercebida dos grandes fóruns de psiquiatria. Eu a denomino “Síndrome do Prefácio” e seus sintomas são bem conhecidos.

A vítima desse mal acredita que sua felicidade chegará daqui a algum tempo: quando fizer 20 anos ou 40. Quando arrumar um emprego melhor ou for promovido, quando casar, quando se divorciar, quando comprar a casa ou trocar de carro novo, quando se aposentar… Quando e quando. Nunca o aqui ou o agora!

O futuro x o presente

Penso muito nesta síndrome que a muitos acomete de forma inconsciente quase sub-reptícia tendo em vista a cumplicidade coletiva dos grupos sociais e das grandes instituições.

A síndrome do prefácio preconiza que sua vida ainda está para começar. Tudo o que você viveu e vive até agora é apenas o prefácio da grande saga que ainda irá escrever.Assim posterga suas mais importantes decisões, menospreza seus melhores feitos, ignora seus melhores amigos e subestima suas relações afetivas mais significativas.

Afinal esse namoro é apenas um passatempo! Esse emprego é temporário, essa amizade é passageira, esse romance é efêmero. O melhor ainda está ainda por vir!

Essa síndrome paralisa a capacidade de aproveitar o momento e degustar os aspectos mais proeminentes do aqui e do agora. Faz com que cada um viva o amargor diário da frustração de intuir que do outro lado a grama é sempre mais verde! E quanto mais distante estiver de si esse “outro lado” — seja no tempo ou no espaço — o verdor desse simbólico gramado será muito mais perfeito e pleno.

Querer ou não querer?

É em parte devido à essa síndrome do prefácio que as pessoas dirigem seus carros, completamente desesperados pelas avenidas ou rodovias do fim de semana com pressa de chegar a esse “outro lado”.

Seja para disputar uma mesa no happy hour do bar da moda seja para usar a espreguiçadeira compartilhada na casa de praia comprada em consórcio. O melhor está além. Sempre além. Seja o além das minhas posses. Seja o além de minhas possibilidades. Questões que podem ser resolvidas numa equação simples de investimento x oportunidade

Se estou na plateia quereria o primeiro balcão. Se estou em Canavieiras almejaria Joaquina. Não. Não é o velho dilema do copo meio cheio ou meio vazio.  Ou da ave na mão comparada àquelas duas voando no céu inalcançável. É o dilema entre o real e o imaginado.  O que no fundo é uma grande bobagem porque o imaginado sempre supera o real— pelo menos nessa perspectiva tão rasteira. Não é trocar o copo meio cheio pelo meio vazio. É trocar um copo cheio real por outro copo também cheio — porém — imaginado.

Especiaria perigosa

Não tenho nada contra a essa mola propulsora que nos faz querer sempre mais. O que me perturba na ambição em seu papel da pimenta que estraga o prato da vida, tornando-a intragável — Não é a ambição em si — mas seu excesso que amortece o sabor das pitadas necessárias para deixar a vida mais viva.

Mas é essa fome que nunca cessa; é esse vazio que nunca se preenche.E, no entanto, a vida é no fundo a própria jornada e não o almejado ponto de chegada.

Que tal reduzir a velocidade na sua a ida à praia e aproveitar o passeio? Porque o melhor instante é o agora e o melhor lugar é o aqui. Só dessa forma conseguiremos construir uma sucessão temporal de “aquis e agoras” num crescendo em qualidade e intensidade que transforme a aventura de viver numa experiência memorável.

Artigo de Mustafá Ali Kanso (Adaptação)

Portal Raízes

As publicações do Portal Raízes são selecionadas com base no conhecimento empírico social e cientifico, e nos traços definidores da cultura e do comportamento psicossocial dos diferentes povos do mundo, especialmente os de língua portuguesa. Nossa missão é, acima de tudo, despertar o interesse e a reflexão sobre a fenomenologia social humana, bem como os seus conflitos interiores e exteriores. A marca Raízes Jornalismo Cultural foi fundada em maio de 2008 pelo jornalista Doracino Naves (17/01/1949 * 27/02/2017) e a romancista Clara Dawn.

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