Nada nos machuca mais do que as lesões afetivas. As feridas que ficam na alma. Mais do que dor física, a falta de amor, a traição, a ausência de determinadas pessoas ou ainda as palavras proferidas na hora errada são capazes de nos ferir mais do que a dor da carne.

Desde criança nos habituamos a segurar o choro, escondemos os momentos de fraqueza e engolimos “seco” a dor que, mesmo pequenos, temos a obrigação de agirmos como adultos.

Nossos pais nos ensinam a ser fortes. Como se força significasse não sentir as vicissitudes da vida quando na verdade sentimos muito intensamente as ausências.  A falta de afeto, a falta de nossas mães e nossos pais, a morte ou o sumiço do cãozinho de estimação, a repreensão injusta da professora na escola e os risos sarcásticos e irônicos dos colegas.

Durante toda a vida vivenciamos situações de injustiças, crueldade e desamor. Para o que nos fere não existe escapatória. Faz parte da vida e de diferentes formas e momentos iremos viver essas dores.

Qual a solução para aquilo nos machuca profundamente? A solução é mais afeto, mais gestos e momentos do amor puro. E apesar de parecer algo simples, não temos tido tempo nesta vida para aquilo que é o remédio da alma.

Numa época em que todos vivem sempre correndo, não há mais tempo para uma conversa amena com os amigos, um telefonema, um olhar mais demorado, o apreciar da chuva ou do pôr do sol. Não viajamos mais para dentro de nós mesmos à procura daquilo que nos conecta com a própria vida.

Nossos filhos crescem sem nossa presença, muitas vezes rodeados de presentes que simbolizam as tentativas falhas de compensação pelo nossa ausência.  Envelhecemos dia-após-dia, afastando de nós mesmos as pessoas a quem mais amamos.  Já levantamos apressados para ir ao trabalho, à faculdade, ao supermercado e para cumprir as inadiáveis tarefas que a vida em sociedade nos impõe.

Dessa foram não curamos as feridas da alma e acabamos por recriar lesões afetivas a quem está ao nosso redor. Não por maldade, mas pelo ritmo contagiante da vida. Reproduzimos em nossos filhos os mesmos erros de nossos pais. E assim sucessivamente.

Diante da loucura do dia-a-dia devemos nos lembrar, diariamente, daquilo que faz a vida valer a pena. São os pequenos momentos, as pequenas coisas, aquilo que acontece de forma natural e espontânea. E essas coisas simples nem tem preço. Um momento tranquilo com nossos filhos, parentes e amigos  sem a pressa da vida moderna. Uma palavra de conforto e motivação. Um elogio e um reconhecimento; aquela conversa franca que nos conforta.

Se por um lado as lesões afetivas nos marcam profundamente, os afetos tem o poder de nos curar de todo mal vivenciado um dia. O abraço afetuoso, um beijo na testa, uma expressão de amor que pode vir em palavras ou numa simples expressão corporal.

Nada muda o nosso passado. E por mais dor e arrependimentos que se carregue, o comportamento positivo de agora tem o poder de transformá-los. Para nós e também para os outros.

Se a falta de amor em diversos momentos da vida nos marca com dor, a presença do amor alivia as marcas adquiridas ao longo de nossa existência. E o amor nos torna mais forte e tolerante para com as dores que há de vir, suavizando as feridas dos outros, de preferência as feridas dos que tanto amamos. A resposta simples para todos os males da existência: o amor!

Texto de Caroline Vila Nova via Obvious

Portal Raízes

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